quinta-feira, 8 de julho de 2021

Pointer

Observem! Neste exato momento, uma família está sentada à mesa, almoçando. Sempre fazem isso sábado. E debaixo dessa mesa está nada mais nada menos que um cão, melhor, uma cadela, criatura nunca tida como importante, mas que hoje será peça chave de toda questão.

Qual maior importância um animal pode ter em uma trama? Respondo essa pergunta com outra: o personagem principal merece ou não maior destaque no desenrolar dos fatos? Sim, sabemos todos nós.

Agora a pergunta bombástica: e se, antes de ouvir o causo, você soubesse que o narrador é, na verdade, ela, a cadela, o que você faria? Pois morra, se respondeu morrer, porque, por incrível que pareça, essa é a realidade da qual ninguém pode fugir meu bem: eu sou ela, a cadela narradora. Aceite os fatos. Não gostou? Pois morda os cotovelos que passa.

Sou Poli, cheguei nesta casa envolvida num pano que, por acaso, era a camisa do Colégio Polivalente. Daí o nome, Poli. Eu só soube disso grande. Com o passar do tempo, aprendi que tudo que é Poli é mais. Testemunhei a vida escolar de Débora, vi as separações de sílabas, onde as palavras maiores eram chamadas de polissílabas. Dificuldade no ginásio, com os temidos polinômios. Por isso, entendi que nasci e fui batizada para ser mais e melhor que os outros cães.

Conversa vai, conversa vem, aprendi, de orelhada como sempre, o que é ser valente e amei ouvir aquilo. Foi aí que fechei a conta e decidi: se Poli eu já era por batismo, valente eu seria por determinação e esforço. Estava decidida, eu seria a cadela Polivalente. Foi assim que eu comecei a me tornar a cadela anti-social.

Peguei rápido o jeito de todos da casa; dei as respostas que precisavam, por isso sou amada por todos. Sou quieta e silenciosa com D. Lurdinha, porque é assim que ela é. Fico deitada na cozinha enquanto cozinha. Ela me acha companheira por isso. Lucro duplo: deitar, sentir cheiro de comida gostosa, e ser amada no final. Dona Lourdes, coração sem igual.

Também sei ser fiel e, até hoje, espero em todo fim de tarde seu Mauro chegar do trabalho. Antes fazia festas absurdas, com direito a xixi. Só ele tinha direito ao xixi na festa de reencontro. Hoje não precisa mais. Virei xodó. Não saio do portão enquanto ele não chega. Ele diz que é isso que o faz gostar mais e mais de mim a cada dia. E eu aqui, quieta em meu canto, fingindo que não sei de nada.

Correr e pegar sandália. Bastou para Jonatas se derreter. Quando saía com ele para fazer "as coisas" na rua, obedecia somente a ele. Amigos também jogavam. Ignorava, mas eu pegava somente a sandália dele. Funcionou. Hoje, quem compra a minha ração é ele, ainda tem briga se outra pessoa o fizer.

Já com Débora o caminho é outro, o segredo é o silêncio, nada de euforia. Me aproximo abarulhando somente com minhas unhinhas tirintando no piso. É assim que ela fala: "unhinhas". Chego ali de mansinha, como quem não quer nada, e me deito perto do pé dela. Pouco tempo depois, dedos do pé começam a coçar as minhas costas, minhas orelhas. Fico de barriga pra cima, facilito o paparico. Ela larga os livros, vem me alisar, falar um monte de coisas sem sentido com voz fininha. Depois, volta aos estudos. Hora de sair. Voltar, só a noite. Assim passei a dormir no quarto mais cheiroso da casa.

Não se engane você, porém, com a boa prosa que sai da minha boca. Sou diva, sim, mas só com a família. Com estranhos o procedimento é bem outro. Se tu se faz perdiz, me transformo em sua natural predadora. Os vizinhos sabem como é que a banda toca: aqui, vacilou, dente passou.

Calcanhares, panturrilhas, glúteos vivem por aí, aos montes, com as minhas assinaturas caninas pelas redondezas. Sei também que é exatamente por isso que eles me odeiam, e eu adoro isso, adoro que me odeiem. Mais gosto e menos arrependimento na hora de decidir entre fazer ou não fazer a minha próxima vítima.

Eu não tenho dó, e explico o porquê: é que o ser humano é, disparada, a espécie que eu mais odeio. Sentem-se no direito de fazer o que bem querem e entendem, e quando a resposta vem, reclamam. Não aceitam que para cada ação há uma reação, e não querem nunca arcar com as consequências do que provocam.

A casa é nossa, o pé de carambola está aqui em nosso quintal, tem uma cachorra nesse quintal, então por que invadem? O que-que eu posso fazer, se estou lá para guardar a área de estranho, e um estranho entra no local? Eles não me davam opção, e eu me sentia constrangida com a situação que eles me metiam, comigo tendo que fazer o que eles me obrigavam a fazer. Eu me via obrigada a ter que morder pessoas. E no fim, eles reclamavam.

Depois das dezenas de audiências aqui na porta, com choradeira de guri, e reclamação de mães aqui na porta, veio o desfecho injusto. A essas alturas, já corria o boato de que iam me envenenar, então a família cedeu à poda da caramboleira. Por isso, eu passei a dormir dentro de casa, e o número de incidentes diminuiu a quase zero. Era chegada a insuportável fase da eterna calmaria. Eu odeio política, também…

E foi no tempo da paz sem emoção e eterna reflexão sem graça que eu lembrei do que um dia ouvi da boca de D. Lurdinha que "quem não vive para servir, não serve para viver", e confesso que entrei em parafuso, aquilo me atingiu. Por mais que eu não quisesse, eu comecei a me ver cercada por todos os lugares, a todo momento, pela pergunta que não queria calar: qual seria, então, a minha serventia, depois do fim da fase de guarda-quintal da casa?

Pior: qual seria o papel do cão no mundo atual? Foi um mergulho profundo no mundo da introspecção. Pelo que sei, começamos a acompanhar os homens nas caçadas, depois fomos viver em casas. História da minha raça passa por aí também. Somos ótimos cães de companhia, somos elegantes, inspiramos produções de imagens. Sei. Mas, apesar da beleza, eu sei que nossa raça construiu fama foi caçando, não foi sendo bicho de pelúcia que respira não. Fase boa, nossa raça caçava aves, junto com os humanos, pena que acabou.

Fui da reflexão à conclusão: já que saímos da caça e patrulha, façamos, ao menos, às vezes do bom vigilante. É o mínimo. Se assim não o fizermos nem isso bem, então já é hora de arribar de de junto do dono de uma vez. Mas eles, os cachorros de hoje em dia, não pensam assim.

Aliás, eu sinceramente nem sei se os cães desses tempos pensam em qualquer coisa que seja. Estão todos felizes. Caíram na felicidade trazida pelo eterno comodismo. Revoltante. Morreram em vida. Por isso eu os odeio com todas as minhas forças.

Aos gatos também dou com prazer uma fatia do meu ódio desvelado. Se vejo um, ele logo se perceberá diante de um inimigo. Contudo, pontuo meu respeito, sim senhor. Diferentemente dos cães, os gatos ainda caçam. Por isso admito que odeio muito mais os cães do os gatos. Cheguei a saber por aí que tem cachorro que nem mais latir, quer! É o Apocalipse!

Até que dia desses estava sob a mesa igual estou agora, sem pensar em nada. De repente, um pensamento ruim me chegou à cabeça. Pensava em cinza, lama; limo. Pêlo molhado podre, também. Ergui orelhas, mas não peguei nada, nenhum barulho. Entrei no modo de busca, alterei o olhar, não vi nada, nada na minha frente. Somente quando espirrei foi que tomei consciência, e reordenei meu modo caça, relembrei que cão primeiro tem que focinhar, depois é que ouve e visualiza.

Então, focinhei, e logo descobri no ato o que era o tal pensamento ruim: um fedor, um fedor de rato de esgoto. Pointer de caça para ele. Em marcha, ao portão, ouvi o chiado, só faltava ver o miserável. Em meio à agonia e êxtase soltei, precipitada, dois latidos, foi meu erro. O rato estava próximo e eu não vi por causa da placa de alumínio soldada ao pé do portão para evitar respingos de chuva varanda. Espantei a presa! Que falha de conduta básica na arte da caça. Realmente, eu tinha enferrujado…

O rato grande me viu. Meia volta. Ia fugir! Por sorte alguém o viu e me viu desembestar em latir. Veio então a mão aliada e "clique". Saí pelo beco. Como errei antes em fazer som, dessa vez eu seguia silenciosa, concentrada. Não latia, nem rosnava como sempre faço quando saio para socializar com os queridos vizinhos. Vi o rato rumando para baixo de um banco. Algo tão podre e indigno quanto o rato estava no banco onde eu caçava a minha presa. Parecia ter medo, mas ignorei, porque não gasto dente vítima que não pode correr.

Parei frente ao banco de cimento e assim estávamos nós, quadrúpedes, frente a frente, prontos para finalizar o embate. Encurralado, o roedor mostrou os dentes. Esperei imóvel, estava tudo na cabeça. Simularia o golpe e esperaria a resposta. E quando ele atacasse, eu recuaria e avançaria, num bote rasteiro, rápido mais-que-rápido, na velocidade de um flash, e isso tinha que acontecer assim que acabasse o golpe dele. Depois era só abocanhar lateralmente e sacudir, sacudir até sucumbir. Estava para começar.

Começou. Simulei o ataque. Ele respondeu, atacou. Recuei. Não foi a chance adequada. Aí ele atacou pela segunda vez. Com vontade. Pulou, saiu do chão. Minha vez chegou. Era abocanhar, não largar, sacudir, sacudir, sacudir. Meu sucesso e minha vida dependiam da precisão do meu ataque.

Ratos costumam morder focinhos de cachorros afobados ou inseguros, que afrouxam depois da captura. Já ouvi comentários de predadores que viraram presa num passe de mágica. Comigo mesma não, ali ia ser cate, abate, xeque-mate. Ele flutuou, não tinha como fugir.

Mas, na hora h, algo me surpreendeu; me atravessou a vista. Mas mais do que a minha vista, esse objeto estranho atravessou também o corpo do rato. Eu nem vi o ataque. Me assustei com o flash marrom que me cruzou a visão, travei, quando voltei a mim, o rato já estava abatido. Em fração de segundos, antes de terminar já estava terminado, por conta de uma ação terceira, extra cenário. Olhei para trás e vi a poderosa arma de abatimento, que segundo antes era um trovão veloz ao meus olhos.

Aquilo era um pedaço de pau com ponta. Uma lança improvisada. Um garoto empunhava aquilo. Um guerreiro. Com lança, espada, escudo e tudo. Montava um cavalo com cara de burro. Capa e capacete... Gostei dele. Roubar minha presa – surpresa – não incomodava. Pelo contrário, aquilo que eu sentia era muito bom.

Estava eu, enfim, explodindo de felicidade e emoção. Enfim, eu tinha encontrado um ser humano com espírito combativo, igual o meu, como deveria ser. Me senti como se estivesse na época antiga, junto de meus antepassados. Não me fiz de rogada e homenageei o guerreiro, era uma honra para mim ser escudeira daquele ser magnânimo, esplendoroso ser só por sua existência.

Pointer de companhia para ele. Um latido. Dois. Três. Baixei a cabeça, ele me tocou, estremeci. Êxtase puro. Sentava levantava abaixava deitava, gritava silenciava. Fazia tudo isso ao mesmo tempo.

Confesso que até aquela verdadeira vontade de fazer xixi veio, mas, segurei a onda. E se um absurdo desses cai no ouvido de seu Mauro? Como era que eu ia ficar?






X

 Bote cinematográfico. O predador captura a presa e: choque! Surpresa! Pancada! Tome-lhe, tome-lhe, tome-lhe um, dois, três bananões ao pé do ouvido e sacudimento de corpo na sequencia. Evolução ao esgoelamento, reboque e espancamento à luz do dia. No bate rebate nota-se o ferimento na orelha, causado pelo relógio de aço. Todos olham; ninguém interfere.

Do campo para o beco haja chão pra subir debar'de pancada. E sem parar, e onde pegar, pegou. Cena de terror gratuita a luz do dia que todos assistiam. Quem não estava na rua, eram chamados e logo saíam às portas, as pencas, as pestes. Ziguezagueando entre os transeuntes ambos entraram no beco.

Depois de alguns metros de caminhada eles deram de cara com a porta de casa. Estava fechada. Azar do menor! O "entra porra!", seguido do arremesso de corpo abriram a porta, natoralmente. O menino-aríete nem bem caiu no chão da sala e já foi suspenso, pelo pescoço, e tome-lhe. Tome-lhe, tome-lhe, tome-lhe. Tapas, tapas, e tapas a moda onde pegar pegou.

Estava só começando. Choque! Surpresa! Pancada! E saraivada de socos. Nas costas; nas coxas, em todo lugar.

— Para de chorar!

Dona Regina, a mãe rebento arrebentado, assombrou-se com aquilo, que era tudo, menos uma surra.

— Regina! Saia da frente!

— Não! Não vou sair. Isso é jeito de bater nele?

— Giovane! Volte que não acabou.

— Giovane! Fique aqui.

— Regina! Sai da frente!

— Não! O que foi que ele fez? Parece que ele cometeu um crime, disse a mãe mostrando calma onde não tinha.

— E não cometeu? Reinvestiu o pai contra a dupla encurralada.

— Não, não cometeu.

— Não?

— Que eu saiba não.

— Então o que é isso aqui? E o movimento de Gilvan fez a sacola vomitar um par de chuteiras, com um par de meias, enroladas, escondidas uma em cada pé do calçado novo recém batizado pelo barro.

— Calma; Gilvan. GILVAN!

— Calma não! Eu vou matar ele. Giovane, você é um homem morto!

Regina sabia, não existia situação pior do que quando Gilvan estava certo por que era aí que ele perdia a cabeça. O inferno instaurou-se na sala, com ele investindo com determinação de um felino em capturar a presa. Os olhos e testa brilhando no vão escuro. Tome-lhe carga na esposa, que intercedia, como redentor, braços abertos e mãos em formas de "C", algemando-o. A cada tentativa de soltura, a mãe reposicionava os pés, adaptava as mãos em forma de pinça, refazia a pulseira da salvação.

Por causa das lágrimas de Regina, o peito de Gilvan já ardia em brasa. O rosto da mãe, por momentos, roçava por entre os peitos dele. Na maior parte do tempo, porém, quando ela precisava falar ou respirar, era o cocuruto que deixava ali. Fazia isso para poder olhar cada movimento dos pés do seu então oponente. E a cada mudança do marido, ela fazia as adaptações necessárias, e continuava a resistência.

A única carta que Regina tinha na manga era o conhecimento do senso de justiça de seu marido. Ela sabia que ele queria se soltar sem machucá-la, e era por isso que ela o encarava, entrelaçava os dedos nas costas do touro, e pedia a tudo de mais sagrado que aquilo terminasse logo. Mas uma hora a hora H chega, e ela, enfim, chegou ao limite. Em um instante de vacilação, folgou a amarra, e o marido, constante lutador, desvencilhou-se rapidamente, deixando-a cair no sofá, sentada.

Gilvan iniciou a marcha em direção ao filho, que transpirava medo. Ele não fugiu, deixando-se capturar em dois tempos. A mão em forma de punho cerrado estava içada ao ar, quando...

— ACORDE GILVAN! SEU IDIOTA! Você acha bonito isso? Você tá dano de mão fechada no menino. Os vizinho querem mais é ver você matar seu filho destá. Pedi socorro, ninguém ajudou. Mas quando você matar ele, eles entra. E aí é que vai ser: pai preso e filho morto.

Regina soltou o verbo, e ele parou. Ele não ia deter-se, mas seguir em seu intento depois de alertado o deixou desconsertado. Responsabilidade demais agir depois de ser avisado. Analisou em torno, sentiu o silêncio dos curiosos do lado de fora. Ficou imóvel, na sala quente. A mãe, chorosa, tomou lentamente o filho das mãos do pai. Abraçava e afagava a cabeça do herdeiro uma; duas vezes. "Calma, calma".

Na sala de ar irrespirável de tão quente Gilvan decidiu-se. O povo queria, teria, mas não veria a surra. Iria tirar deles o prazer da visão fechando a porta. O filho seria exemplado, os abutres teriam porta na cara. Ofendido com a tal impunidade, Gilvan ainda sentia o gosto amargo na boca e aquilo pedia por remédio. Porém, ao mudar de direção e rumar para a porta, tudo mudou.

Choque! Surpresa! Pancada! Gilvan foi surpreendido por algo que lhe riscou a vista no meio da multidão e lhe deteve o espírito. Algo não, alguém. Alguém, com certeza, passou na porta, sem se importar com nada do que acontecia ali.

Passou hayai! Não deu pra ver. Gilvan paralisou-se. Neste mesmo momento, a luz do sol incidiu na porta de casa. Afinal, o que era aquilo que lhe riscou os olhos, da esquerda para a direita, roubando-lhe a vontade de se mover? Nascia, na cabeça fechada e escura de Gilvan, a luz da esperança, que ganhava capilaridade tempo a tempo.

Estranhou a situação. Todos na rua queriam vê-lo arregaçar o filho, e aquela figura passou ali sem reduzir velocidade nem olhar pro lado. Gilvan saiu, parou no meio da multidão, aglomerada em sua porta. Um sorri amarelo, outro chama na casa ao lado, outros fingem auxiliar o socorro. "Grávida passando mal". Ignorando tudo e todos; olhou para frente e fez a grande descoberta.

Era o garoto da casa mais a frente. Usava jeans (bermuda), chinelo de dedo, e um colete verde que, com exceção da cabeça, cobria-lhe a metade superior do corpo. Era o trabalhador brasileiro fazendo, literalmente, valer seu dia. O vizinho de frente observou a observação de Gilvan, em silêncio, e em dado momento ambos olharam-se, e perceberam-se percebidos um pelo outro em admiração a um homem menor. Constrangeram-se.

— Rapaz... cuspiu Gilvan, tentando iniciar um diálogo e fingindo não querer iniciar um diálogo. É domingo, e o garoto trabalhando.

— Não, rebateu o anônimo, ele está voltando de ontem de noite.

Gilvan ouviu tudo sem tirar o olho das costas do trabalhador brasileiro e balançou a cabeça, assentindo respeito. Contudo não deu tempo de ensaiar a falsa emoção, porque logo veio a segunda paulada.

— O quê?

— Isso que você ouviu. Ele cuida do irmão também. Ouve queixa de vizinho, leva pra escola.

Foi à conta! Gilvan voltou para casa em silêncio, envergonhado. A tapa sem mão lhe desnorteou. Tinha uma pedra na garganta. Sentou-se no braço do sofá, olhou a sala, com uma mão em cada joelho, as pernas escancaradas. Ficou ali, silencioso. O que estava fazendo? O que estava acontecendo? Estava cansado, cansado de tanta babaquic-

— GILVAN! Tá falando sozinho! Tá dormindo? Ou delirando? Acorda criatura. Regina, com olhos nervosos, chamando. Gilvan, você está chorando...

— Que chorando o caramba! Regina! Você tirou minha autoridade! Quero ver como vai ser quando ele estiver aprontando de novo.

— Fale com ele, Gilvan.

— Que falar o quê! Do jeito que eu estou aqui, se eu pegar, até em baixo da unha ele vai tomar pau. Tenho nada pra falar.

— Mas ele que falar com você.

Depois da rápida saída do garoto do quarto para a sala, pai e filho estavam frente a frente. Não importa se se descobriu vida em outro planeta; se Jesus Cristo está de volta, curando alguém na casa ao lado. Regina não tira os olhos deles de jeito nenhum. O sentimento de incômodo amainou-se depois que ela viu os olhares leve do pai, e determinado do filho. Depois daí ela sentiu que o tão impossível final feliz parecia querer chegar.

— Diga o que você quer. Pode dizer...

— Pode ficar tranqüilo meu pai! Eu decidi que eu vou parar!

— Rapaz... Pra mim você...

— Não. Meu pai...

— Silêncio! Agora eu é que vou o que eu decidi. Eu decidi que você vai fazer o que você quiser fazer de sua vida. A vida é sua, quem sabe é você. Faça o que você quiser. Eu assumo o risco.

— Tudo bem! Mas eu sei o que eu tô falando!

— Não! Quem sabe o que está falando, aqui, sou eu.

— Eu sei, meu pai, mas...

— Não...

E começava nova discordância entre pai e filho. Engraçado: mais cedo defendiam posições contrárias. Agora, depois de refletir, ambos mudaram, e defendiam posições opostas. O pai agora defende o que o filho defendia mais cedo, já o filho defende o ponto de visão anterior do pai.

Estranho: não se entendiam, por mais que quisessem. Mas mais importante de tudo era que se amavam; que se percebiam como continuação um do outro; e tinham intenção de se preservar.

A cena era, feliz e infelizmente, engraçada. Se brigavam antes por egoísmo, agora brigavam por empatia. Brigavam até para fazer as pazes, tem cabimento um negócio desses?

A maluqueira continuou e foi, mais uma vez, choque, surpresa, pancada. E Regina ficou ali, feliz da vida, sem nada dizer, contemplando a tolice dos homens da casa. Jamais enxergariam o verdadeiro xis da questão.

segunda-feira, 14 de junho de 2021

SETe

Depois de dias resistindo, Wiliam aceitou missão que o destino lhe impôs. Quem o ignorou no dia anterior não pôde fazer o mesmo na terça, quando a gradação do azul chamou atenção dos transeuntes, que viam o esboço na parede e detinham-se, impressionados. Na quarta-feira, descobriu-se: o azul era céu, e o amarelo, o chão. Começou então a jornada rumo ao final feliz.

A dor física, porém, já evoluía, juntamente com a evolução do trabalho do molambo'mano, que sofria em expressões terríveis. Foi quando alguém resolveu ajudar, sob olhares de reprovação de todos que olhavam felizes, mas não interferiam. Ele sorria e era horrível. Esquelético, desdentado, fedorento, e desmoralizado pelas surras aplicadas pela vida e por homens maus, ele expunha a boca sem dentes, em clara expressão de dor, era impressionante a ponto de constranger.

Estava claro que desenhando o jovem piorava o fio de saúde que lhe restava não se sabia como. Mas, a empolgação da platéia era o que o fazia seguir firme com as mãos sobreviventes às pancadas de pá com concreto seco. Seguia pintando, fazendo nascer com as mãos arrebentadas pela surra que lhe tirou, além dos dentes, o direito do lado direito endireitar. Lembrava que acordou triste do coma, e desde que chegou ao bairro (dezessete de abril) sabia que morreria logo. O querido tio o trouxe sem lhe dizer uma nada no trajeto, deixando-o sentado no banco do beco. Já esperava pelo ponto final, nem quis entrar na casa que a família abandonou.

Minutos depois, barulheira orquestrada: corre-corre, porta fechando, latidos, muitos latidos. Acústica conhecida, coração veio na boca. Latidos cada vez mais perto. Era a hora, hora do destino se cumprir, desespero tomou conta. Mas, era hora de arcar com as conseqüências do tropeço dado há anos.

Baixou a cabeça, aceitou. Então, em menos de um segundo tudo estava diante dos olhos. O primeiro ato: a Cadela, o rato, e a caçada. A cadela-cão, Poli valente, repentinamente, se arma pronta para o ataque, e golpe surpreendente. Vindo de outro lugar. Surge um guerreiro; uma lança; homem-criança, rouba a cena. O rato já estava morto. Ratos também morrem dignamente...

A partir daquele momento tudo mudou, a cena teatral hospedou-se em sua mente. Passaram-se dias e aquilo evoluía, cabeça doía, não dormia. Sentiu-se num labirinto onde era prisioneiro daquela imagem, presa em sua cabeça, reprodução cíclica, mostrada sempre mais nítida quando estava com os olhos fechados. Ratos também morrem dignamente...

Depois de três dias e noites relutando, envergonhado pela inveja que sentia, ele saiu para rua, alienado do mundo e começou o desenho na busca desesperada de encontrar a paz. Fotografaria a imagem que por três dias torturou-lhe o espírito e lhe trouxe consciência: ratos também morrem dignamente. Sonho e pesadelo, tudo na parede, no final da sexta-feira. Os pincéis finos passavam a arte final do falso canhoto, que já sangrava pela boca a cada tosse.

Ao final do entardecer via-se na parte mais baixa da parede o desenho da lua, amarelada. Notava-se a cabeça de cachorro, na extrema esquerda, e, mais ao centro, um garoto fantasiado de cavaleiro, montando um cavalo de pau, desfere um golpe com o braço direito. A proteção plástica do garrafão de vinho era o elmo do guerreiro, e a capa rubra era um saco de alinhagem.

Pela direita, o monstro, dentes enormes e pernas escamosas, recebia o golpe. O público, que esperava pelo dragão, admirou-se ao ver o roedor cinzento no lugar do tradicional vilão da peça. Monstro que soltava, no lugar de sangue, explosões em verde vivo.

Lamento era ter que esperar pelo socorro do dia seguinte para ver o desenho mais nitidamente e confirmarem suas expectativas. No outro dia se confirmaria que sim, se tratava de um rato, mas, por causa da de mais cedo, essa não foi nem de longe a fofoca mais quente. Segundo boca a boca narrava, alguém viu um rapaz deitado no chão do beco, ainda na escuridão da madruga. Aproximou-se dele e percebeu que, além de não atender aos chamados, parecia não respirar. Uma ambulância foi chamada, e, feitos exames preliminares, contatou-se que nada mais podia ser feito. Uma carteira foi encontrada, e um rapaz, mostrando o verso dos documentos aos colegas, pediu atenção.

— Faz aniversário hoje, o miserave. Vinte e três de abril. Trágico!

Paralisados, todos se mantiveram detidos diante do palco montado sob a ação dos primeiros raios de sol que traziam a luz da manhã ao mesmo tempo em que desvelavam a obra autobiográfica, a tela em homenagem ao santo guerreiro.

Novamente, olharam o falecido pintor, nascido e renascido na mesma data. Agora, sob luz percebia-se que ele sorria. Sim, sorria e era lindo, porque aquele era o sorriso dos que fazem a passagem sem dor. Set montado em sete atos, final feliz, missão cumprida. Quem viu, confirmou: sim, era possível morrer dignamente.


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Capas Inspiradoras

WOopa!

Olá! Alô! Alô você…

Uma pergunta: até aonde você pode chegar em trinta e seis anos? O que você pode atingir, em termos de ressonância, nessa faixa de tempo?

Pois…

Trazemos hoje aqui um sujeito que viveu a ávida vida tão intensamente, mas tão intensamente que nem deu para mensurar em números quanto tempo ele viveu.

Sim, o homenageado da vez é Robert Nesta Marley, ou, humildemente atendente somente por Bob Marley mesmo.

Como foco de análise específica, teremos o décimo primeiro disco de estúdio de Bob Marley and The Wailers, o Survival, batizado inicialmente de Black Survival.

A intenção era reforçar a necessidade de união entre os países da África, recentemente repartida de forma arbitraria pela Europa. A capa comunica demais…

Sugestivo não? Não. Na verdade não. Não é sugestivo. É simples, direto, objetivo, literal. Como deve ser. Então…

O disco trata-se de uma das obras mais politizadas do artista, e traz em seu bojo canções muito representativas.
Canções que serviram como hino para independências países, caso de Zimbabwe, que homenageou o país de mesmo nome. Outras serviram de menções honrosas para todo continente. Sim: todo continente. Caso de África Unite.

Trata-se de um disco de redenção também, visto que surge ressurgindo. Sim não se assuste. Sim: surge ressurgindo. É a volta do Bob Marley mais contundente. Mais guerreiro, menos democrático. Mais agente, menos tangente.

Estava mais do que na hora, ele vinha sendo duramente criticado por estar agindo de forma (acreditem no termo) canabicamente mais manso/amoroso/pacífico.

Então, nesse disco sentiu-se que o cara estava de volta. Nas composições, percebeu-se isso logo de cara. Quem olhou o trabalho dele, como é pedido na primeira frase do álbum (look my job) adorou. Bob abriu a caixa de ferramentas.

Não a toa na África do Sul o disco ter algumas partes censuradas, e Bob Marley ser considerado um “sujeito marginal potencialmente perigoso”. Nelson Madela recomendou, o povo ficou assim… Quase o caldo entorna. Mas deixa isso quieto. Essa é uma questão fora apartheid.

Nem o povo negro sobreviveu: em Survival, canção-título da obra, há uma crítica ao nosso comportamento indiferente, indolente, e pacífico consoante àquele que nos agride. Umas pessoas não têm nada; outras pessoas não querem nada; outras pessoas esperam pelo amor ainda hoje. Mais que certo…

Então fica aqui a minha mimosa mensagem de homenagem ao querido Bob Marley, que aniversariaria anteontem.

Survival, um álbum que eu sofro, e muito, para escolher a minha canção predileta.

Mas ficamos com Zimbabwe, mesmo…

Sobre a pergunta de mais cedo: até aonde você pode chegar em trinta e seis anos? Não se sabe. Só não se subestime… Marley é exemplo para sempre vivo de alguém buscou os próprios sonhos.

Ele atingiu a eternidade. E você?
Onde você quer chegar?
Está fazendo o quê?
O tempo passa...
Para pensar…

Energias positivas.

Atenciosamente,

Emerson.

Ah: Toda vez que um Éfe-dê-pê venha lhe dizer para ouvir Bob Marley por causa da face pacifista dele, na intenção de lhe docilizar a mente, senta com essa pessoa, ponha este disco, esta canção.

Depois pergunte do que se trata ali. Se ele souber o mínimo de inglês e teimar na teoria ladainística alegórica tome suas medidas providenciais…

We gonna fight.


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Capas Inspiradoras


Uma só música divida em dez faixas!. Se há definição melhor do que essa para a paulada musical que é o segundo álbum de estúdio de Belchior eu não sei. Mas, ainda que exista, esta para mim basta! Tenho vínculos verbo-afetivos a proteger...

De fato, isso não é um álbum composto de dez musicas. Não, não se trata disso. O que acontece é uma viagem muito louca (por que não dizer alucinante?) de uma a uma, parte a parte, até que se chega ao final… Pena…

Mas vamos e convenhamos, antes de morrer ao final da mega-obra-prima, curtimos, e curtimos muito o transcorrer da coisa.

Todos nós, Rapazes latino-americanos, nos vestimos com as nossas Velhas roupas coloridas, Como nossos pais um dia já fizeram, e nos sentimos, nos sentimos Sujeito de sorte (tal Como o diabo gosta).

Essa Alucinação maravilhosa, tão antiga quanto uma Fotografia 3 X 4, não pede nada, não pede nenhuma homenagem, não se apoquente, Não leve flores, não faça nada Antes do fim.

De exigência única, esperamos que você entenda essa obra como uma boa garrafa de cachaça dada por um grande amigo que você nunca mais sabe quando verá. Ouça-o de uma vez.

Simplificando: beba tudo, A palo seco…

Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Atenciosamente,

Emerson.
Ah: sobre a frase que inicia o texto…

É de um grande amigo/parceiro/companheiro/crítico/irmão Wiliam Pires de Almeida. Das (pouquíssimas) boas companhias que se encontra por aí...

Se passei a ouvir esse disco, bem como resolvi fazer esse texto chinfrim, em parte a culpa é dele, desse miseráve-ruim.

Abraço a todos!

A gente se vê…



terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Odeio Protagonistas: Rokusho Aoi

Desgraçado, preguiçoso, desonesto, aliciador de menor, torturador de mentes, abandonador de incapaz, e fraco e abusado. Mas aqui, limpem bem suas bocas antes de falar de Sr Aoizinho. É preguiçoso, desgraçado, desonesto. Mas a gente ama. E quando a gente ama não tem jeito, tem que ter postagem...
Senhoras. Senhores. Bom dia/tarde/noite a depender da hora que tu estejas lendo essa minha grandessíssima postagem de segunda quinzena do mês de dezembro.
E é fazendo pose de machão mesmo que eu quero muito dizer que esta postagem vem para tratar de alguém que para mim é muito, mas muito mais do que um personagem merda anônimo de anime.
Saibam meus kery-kerys, que aqui se trata de alguém que eu simplesmente amo, amo, amo. De amor, e de paixão roxos. Esse sujeito paquidérmico é muito mais do que minha cara, meu modelo moral, minha razão de viver, tamanha é a sua condição máster e caricata de ameba, da clássica criatura em eterna condição parasitária.
Para situar os senhores, vos digo: a passagem desse personagem-merda ocorre no episódio 104 do anime Naruto.
Por se tratar de filers (episódios extras cronológicos) ele não aparece no mangá, que segue um ritmo diferente da narrativa episódica adaptada para TV.
A missão de Naruto, Sakura e Sasuke é proteger uma pessoa, missão Rank-A.
Ocorrerá uma corrida, disputada por duas famílias. O tal do sujeito que deve ser protegido pelo trio é um desses dois corredores, que representará uma das famílias.
O desgraçado desonesto surge no anime com a tarefa de barrar Time 7 em seu intento, e ataca o competidor que é protegido pelo grupo.
No corre-corre (a missão ocorre durante uma corrida) muitas surpresas. Advinham? O competidor (Idate) era o que, o quê? Um ninja. De onde? Vila de Konoha. Tinha um irmão e uma vida relativamente razoável.
Até que perdeu num exame, ficou tristonho e foi enganado por alguém. Alguém que o fez se apropriar indebitamente de alguns objetos importantes da vila.
Quem seria esse alguém?
O lindo do Aoi-sensei, O molambo andante…

Primeiro encontro: durante a missão, o time sete é atrasado por um motivo qualquer e Idate se encontra com o tal professor. O homem o tenta fazer desistir, mas falha em primeira instancia.

Segundo encontro: é aqui que o bicho pega! É aqui que eu choro de emoção! Depois do apoio motivacional, Idate volta a se reencontrar com seu algoz do passado.
Em meio ao encontro, várias lembranças. Durante o flashback emocionante, mas nada agradável, o moleque lembra-se da data em que fez o que fez, e no que-que deu seu grande empreendimento.
Logo após seu roubo foi capturado. Mas, num golpe esperto, o irmão de Idate, Ibiki, também foi capturado, e obrigado, sob grave tortura, a decifrar códigos.
Contudo, Ibiki consegue se livrar. E voltam das lembranças aos momentos atuais, momento em que tenho orgasmos múltiplos, com Aoi julgando a atitude de Ibiki face a face com seu ex-aluno…
“Foi decepcionante…
Apostar a própria vida para salvar um idiota como você…
Depois daquilo, você apenas fugiu. Poderia ter voltado para a vila para pedir ajuda. Mas não fez isso.
Pensou que Ibiki havia morrido. Isso não serve como desculpa. Por que na verdade ele estava vivo.
Nesse ponto Ibiki foi grandioso. Não apenas suportou a tortura. Como também não confessou nada… e conseguiu levar o pergaminho de volta.
E ele fez tudo isso pelo irmão inútil…
Você traiu a vila, abandonou seu irmão, e passou a pensar somente em si mesmo.
Mesmo sendo do mesmo sangue…
Mesmo com Ibiki salvando a sua vida…
Você não acreditou nele…
Teve medo de ser condenado…
E não acreditou na terra que nasceu, a Vila de Konoha…
Não acredita em ninguém…
Ninguém acredita em você…
Para mim, não existe um aluno melhor do que você. Como prêmio, te matarei rapidamente…"

Sensacional. Ele não é só um verme, é um verme, sabe que é verme, e não tem vergonha, muito pelo contrário, tem orgulho disso. Corações zinhos para você Aoi, você é lindo demais cara.
É por essas e por outras que Aoi é o vilão-merda de Naruto que eu mais amo. Sim, o que eu mais amo, mas não é foda o bastante para ser vilão-merda medalha de ouro não. Prata, prata para ele...
Prata para Aoi, o imbecil idiota, que só faz fé as armas que possui, não dando nenhuma prioridade a treinamento. O idiota, que tem como real objetivo lutar para fazer seus oponentes desistirem de lutar. O tesão dele é apertar a mente até a pessoa abandonar.
Ficamos, por hora, por aqui...

Até a próxima…

Atenciosamente,
Emerson.
Não perca tempo! Corra e veja o sacripanta em ação. Essa é uma tarefa em caráter de extrema urgência... Vá e veja ele impecável, atingindo o seu esplendor no episódio 105, "Uma batalha feroz do estrondo retumbante."
Nessa missão ele abriu a caixa de ferramentas do 0800 disque humilhações gratuitas a pssoas vulneráveis. Nem Sasuke-kun, o sobrevivente dos Uchiha, conseguiu escapar da sessão de abuso psicolólgico…

Um abraço.
Vejam Naruto, e: tomem muito cuidado ao escolherem seus professores como ídolos... É que merda tem em todo lugar, e Konoha bem que capricha nessa arte da produção em larga escala de exemplares-lixo, como bem se pode perceber ao longo do anime...
A nota do sacripanta é: - 6.
Mês que vem tem mais...

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Odeio Protagonistas: Kidomaru


Senhoras. Senhores. Bom dia/tarde/noite. Agora é oficial: as postagens deste blog agora serão direcionadas somente para o quadro "Odeio Protagonistas".

De quando em vez pode ser que surja algum post-anômalo etc. e tal, mas confessamos que o direcionamento principal será dado aos não-protagonistas, aos personagens porra nenhuma que ninguém liga. Eles merecem um cantinho né? Pois é, que seja aqui...

Então, sem mais delongas, vamos dar um tour por Naruto?

É que existem pelos menos uns quatro a cinco personagens do ex-bom desenho que nos causam emoção em falar. Dessa forma, achamos interessante fazer uma rigorosa seleção, e colocar em nosso mural.
Você pode não acreditar, mas isso mudará o mundo um dia. Mas, por hora, podem continuar me ignorando, ôh público miserável.

Então estaremos elaborando um top-three com os Vilões merdas de Naruto que ninguém se importa. Aqueles que só nós, só nós e somente nós é que sentimos o coração bater forte, vibrar hermoso, quando nos flagramos falando dessas figuras escatológicas, anônimos entre os seus, páreas entre páreas do desenho. Da pra entender a situação dos caras né? Vamos dar uma mãozinha a eles então? Vamos... Aê... Rsrsrs...

Passada a fase da enrolação (dois parágrafos em vão minha nossa senhorinha...) vamos ao homenageado da vez: Kidomaru. O Portão Leste da elite de Orochimaru é o segundo integrante mais fraco do quinteto transformado em quarteto do som.

Então logo nos surge a pergunta: se é o segundo mais fraco, portanto ele é um quase ninguém certo? Errado… Vai ver o capiroto em ação depois vem conversar conosco…

Sua primeira aparição e missão: no episódio 68 ele aparece com seus companheiros com a tarefa de fazer uma barreira para seu chefe, Orochimaru-Sama lutar contra o próprio mestre, Terceiro Hokage sem interrupções. Êxito na empreitada.

Mas o instante de maior brilho desse anônimo está na missão mais fantástica do anime Naruto clássico: o resgate de Uchiha Sasuke. O “amigo-irmão” de Naruto está de saída, e adivinha quem tem que escoltá-lo até os braços (defumados) de Orochimaru, mais carinhosamente chamando, Orochi, o pederasta? Sim, o quarteto do som. Depois de uma entrevista motivacional (uma surra) no episódio 108, Sasuke decide ir com o grupo.

A vila manda um grupo de resgate perseguir o time do som, e é aí que começa a melhor caçada do desenho. Impressionante, que mesmo vendo – está claro! – que o escritor cavaleiro do zodiacou a história, a coisa funciona. E vai num ritmo alucinante.

O time do som se julga (e de fato é) muito mais forte que os sujeitos do bem, por isso opta pela lógica simples de ir deixando seus membros mais fracos para dar cabo das escórias, como carinhosamente chamam seus oponentes.

Acontece que o primeiro não dá conta, e os três restantes são emboscados. Aí o nosso protagonista entra em cena. Numa sacada inteligentíssima dos vilões a jogada do time do bem não dá certo, e Kidomaru começa a parar os ninjas de Konoha um a um, numa facilidade incrível.

Contando seus braços (seis) e pernas Kidomaru tem um corpo com propriedades de uma aranha, com seus oito membros. Coerentemente, ele usa técnica sempre com teias ou derivados. Usa um uniforme preto colado, com uma bela bata enorme. É o único que usa a bandana da vila do Som. Moço prendado.

Mas, invariavelmente, como todos os membros do som, usa o enorme cinto de corda, formando o escandaloso laço ao pé das costas, possível de ser visto com o personagem de frente E eu simplesmente amo esta merda desse laço! Amoooooooooo. Divago…

Voltando…

Com uma mobilidade corporal péssima, brigar de pertinho, corpo a corpo logo se mostra que não parece ser interessante para nosso homenageado da vez. O negócio mesmo é se afastar e lutar de média, ou longa distância.

E detalhe importante: sempre estudando seu adversário, e encarando a luta como uma partida, com níveis e dificuldades que devem ser batidas por ele, colocando-se sempre como dominador da questão.

Logo se estabelece um clima de predador-presa (episódio 115). O vilão é de fato amedrontador. Ele captura em dois tempos todos os ninjas de Konoha, e a coisa vai feder, quando, de repente, alguém percebe uma forma de desativar sua técnica. Este alguém tem nome: Hyuuga Neji.

Atraído pelas habilidades do ninja gênio, Kidomaru cede à tentação da perde tempo. Resultado: “Mas que droga! Dá logo uma vontade de brincar…”.

Propõe: “vou brincar com você por três minutos, depois eu te mato”. E é aí que começa uma das melhores batalhas do anime Naruto em sua fase Clássica.

Dispara teias e teias e teias em seu oponente, até capturá-lo.

E o parecer final“você lida muito bem com chacra! E tem olhos bem vivos. Descobriu uma forma de cortar minha teia porque viu com esse olho onde circula menos energia, daí criou uma agulha e rompeu minha corrente. Mas, se eu deixar você longe e neutralizar essas mãos incômodas, você não tem como me causar problemas.

Melhor parte: a batida final de martelo com expressão blazê, e em tom de decepção: “Ah-aah! Quando se aprende os macetes, o jogo perde logo a graça. Só faz um minuto, mas eu já me enjoei de você…”.

E assim é desferido aquilo que se entenderia como golpe final (um golpe final bem asqueroso diga-se de passagem), mas as surpresas continuam, a coisa se acentua, e é iniciada uma luta com direito a episódio especial (116-117) e tudo mais.

Na quentíssima batalha, a relação predador/presa não muda. As analises também. Muito pelo contrário. Elas evoluem. A coisa cresce, quadro a quadro, nos fazendo ampliar a nossa visão sobre Hyuuga Nejy, o personagem analisado em questão, o ninja-gênio de sangue frio.

E o melhor: todo o processo se passa na cabeça do vilão, que está a todo temo tentando achar uma brecha para capturar a sua presa. Ele tanto faz tanto faz, que acaba descobrindo coisas maravilhosas.

É aí que entra a genialidade do criador o desenho. Naruto enfrentou Neji e o venceu usando apenas a técnica do “Pra cima dele Denílson”.

Enquanto que aqui, nessa outra batalha, quando você quer que Neji vença, é o trabalho que um vilão tem em observar é que te impressiona.

De uma hora para outra você se vê diante de um personagem informado, prudente, que busca analisar seu oponente, elaborando estratégias e adaptando-as ao longo que as dificuldades se apresentam na luta. Fantástico!

Quando dei por mim, já estava torcendo pelo lado do mal… Isso acontece com freqüência de sempre em sempre…

O porquê da técnica de proteção, o raio de visão do adversário, o perigo com a velocidade das mãos. O método de ataque para se manter confortável. É sensacional, fabulosa, fantástica e fodástica a atuação desse personagem-ninguém, medonho, asqueroso e, principalmente, apelão.

Kidomaru é o vilão de Naruto que ninguém se importa, mas que eu terceirolugarmente no anime mais me importo.

É dele a medalha de bronze do meu pódio que um dia salvará o mundo das más influências desses porcarias do bem, como o próprio Naruto, que vence usando a bolsa auxílio protagonista, naaaaa…

Fica por aqui nossa análise mais ou menos…

Beijos e abraços, só para os que curtem os maus…

Atenciosa e vilãmente,

Emerson.

Veja Kidomaru em ação…

Eu sou seu oponente (115):


A batalha quente do homem frio (116/117):


A gente se vê...